Sou caipira pra caramba. Eu rio, choro, soluço, não amargo. Sou engolida pela multidão nas ruas, peço perdão quando meus braços (mesmo que pequenos) atropelam outros braços. Sou caipira pra caramba. Deito no colo de minha mãe, meu pai. Rio de mim mesma, desfilo nua pela sala de estar, me imagino madame (só que mais feliz). Imagino casas, lugares, vidas. Sou caipira e covarde, não sei negar a mim mesma. Sou caipira, pois nunca quis ser cristal, sempre quis quebrar.
Sou tão caipira que passo batom vermelho nos lábios e me sinto gente grande. E caipira. Meu olhar acompanha as novidades sem disfarçar estranha e encantamento. Meu sorriso se faz largo, estonteante. Caipira. Nossa, como eu sou caipira.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
O frio humaniza as pessoas
Sentei-me ao lado dela. De tudo que poderia dizer, não consigo pensar em nada mais marcante que os olhos. Cansados, profundos, azuis. Carregava consigo para vender um punhado de pequenos livros, coletânea de contos. A escritora era ela mesma. Na capa: "Contos" - escrito em letra de forma trêmula e desalinhada.
Sua pele me dizia que sua idade era de 30, mas os olhos beiravam os 50. Na mão esquerda, uma tatuagem de coração entre o polegar e o indicador.
Não era a primeira vez que a encontrava ali, no mesmo lugar: rua Maria Antônia, bem em frente ao portão da minha universidade. Já havia comprado um de seus livros, certa vez. Eram bons, humanos. Ao ler, tive a impressão de que a maioria deles era destinada a ela mesma. Em um dos títulos, li: "Mensagem de fé". O título me foi suficiente para entender sua história.
Fiquei a observar o modo como ela abordava os mais variados tipos de pessoas. Executivos, estudantes, trabalhadores de distintas profissões.
- Contos?
- Não - esquivava-se engravatado.
- Contos?
Ignoravam os estudantes. Resolvi puxar assunto:
- Dia difícil hoje? – sorri com um olhar doce.
- É, hoje, especialmente, elas estão mais duras – disse a mulher apontando para uma multidão que ali passava, parecendo ignorar todos os sentidos que lhe foram concebidos.
Prosseguiu:
- As pessoas não conseguem ser... - fez uma pausa quase que torturante - normais. Elas são abertas ou fechadas.
Passei um tempo ali com ela, observando o modo como seus olhos e mãos se comportavam enquanto falava. O olho direito piscava antes do esquerdo. Os dedos se contraíam a medida que as palavras lhe fugiam da cabeça. Em certo momento, um estudante lhe ofereceu esmola. Ela recusou:
- Eu não quero esmola, só quero vender o meu trabalho.
- Sabe o que é, é que eu não vou ter tempo de ler, só ando lendo coisas para faculdade... – justificou-se com voz defensiva.
- É, é, eu sei... – ironizou a mulher, como quem o quisesse longe dali o mais rápido possível. Funcionou, o estudante tratou de apertar o passo e se pôr para fora da calçada que estávamos.
- Você viu? – ela virou-se para mim – Não conseguia nem ao menos olhar nos meus olhos e dizer “não”. Parece que tinha vergonha de me dar atenção.
- Acho que você deveria chorar – sugeri como quem oferece um café.
A mulher tirou a boina que cobria sua cabeça e sorriu aliviada.
- Você tem toda razão.
Não muito tempo depois, um senhor barrigudo e careca aproximou-se de nós arrastando os passos. Interessou-se pelos tais contos:
- Quanto custa? – perguntou enquanto folheava um dos livros com sua mão enrugada e quase que em farelos.
- Apenas cinco reais! Bora comprar? – animou-se a mulher, antevendo a compra. Não estava errada. O velho retirou uma nota do bolso e, antes que pudesse perguntar, a mulher antecipou-se:
- Sim, tenho troco para vinte!
Observei aquela cena invisivelmente, sem pronunciar uma palavra.
- Patrícia Hironimus...
- É a primeira vez que acertam meu sobrenome. Bem, pelo menos é a única coisa de bom que minha mãe me deixou... – pude sentir um ar deprimente e ainda assim cômico em sua voz. Devia ser uma mulher muito espirituosa.
O sol era quase do meio-dia, algumas gotas de suor escorreram por sua testa:
- As pessoas estão assim, quase que sufocadas pelos seus ternos e impacientes, pois não está frio. O frio humaniza as pessoas.
Fiquei a pensar em suas últimas palavras quando peguei o ônibus para casa. O sol que entrava pelas janelas tostava minhas pernas já morenas.
Sua pele me dizia que sua idade era de 30, mas os olhos beiravam os 50. Na mão esquerda, uma tatuagem de coração entre o polegar e o indicador.
Não era a primeira vez que a encontrava ali, no mesmo lugar: rua Maria Antônia, bem em frente ao portão da minha universidade. Já havia comprado um de seus livros, certa vez. Eram bons, humanos. Ao ler, tive a impressão de que a maioria deles era destinada a ela mesma. Em um dos títulos, li: "Mensagem de fé". O título me foi suficiente para entender sua história.
Fiquei a observar o modo como ela abordava os mais variados tipos de pessoas. Executivos, estudantes, trabalhadores de distintas profissões.
- Contos?
- Não - esquivava-se engravatado.
- Contos?
Ignoravam os estudantes. Resolvi puxar assunto:
- Dia difícil hoje? – sorri com um olhar doce.
- É, hoje, especialmente, elas estão mais duras – disse a mulher apontando para uma multidão que ali passava, parecendo ignorar todos os sentidos que lhe foram concebidos.
Prosseguiu:
- As pessoas não conseguem ser... - fez uma pausa quase que torturante - normais. Elas são abertas ou fechadas.
Passei um tempo ali com ela, observando o modo como seus olhos e mãos se comportavam enquanto falava. O olho direito piscava antes do esquerdo. Os dedos se contraíam a medida que as palavras lhe fugiam da cabeça. Em certo momento, um estudante lhe ofereceu esmola. Ela recusou:
- Eu não quero esmola, só quero vender o meu trabalho.
- Sabe o que é, é que eu não vou ter tempo de ler, só ando lendo coisas para faculdade... – justificou-se com voz defensiva.
- É, é, eu sei... – ironizou a mulher, como quem o quisesse longe dali o mais rápido possível. Funcionou, o estudante tratou de apertar o passo e se pôr para fora da calçada que estávamos.
- Você viu? – ela virou-se para mim – Não conseguia nem ao menos olhar nos meus olhos e dizer “não”. Parece que tinha vergonha de me dar atenção.
- Acho que você deveria chorar – sugeri como quem oferece um café.
A mulher tirou a boina que cobria sua cabeça e sorriu aliviada.
- Você tem toda razão.
Não muito tempo depois, um senhor barrigudo e careca aproximou-se de nós arrastando os passos. Interessou-se pelos tais contos:
- Quanto custa? – perguntou enquanto folheava um dos livros com sua mão enrugada e quase que em farelos.
- Apenas cinco reais! Bora comprar? – animou-se a mulher, antevendo a compra. Não estava errada. O velho retirou uma nota do bolso e, antes que pudesse perguntar, a mulher antecipou-se:
- Sim, tenho troco para vinte!
Observei aquela cena invisivelmente, sem pronunciar uma palavra.
- Patrícia Hironimus...
- É a primeira vez que acertam meu sobrenome. Bem, pelo menos é a única coisa de bom que minha mãe me deixou... – pude sentir um ar deprimente e ainda assim cômico em sua voz. Devia ser uma mulher muito espirituosa.
O sol era quase do meio-dia, algumas gotas de suor escorreram por sua testa:
- As pessoas estão assim, quase que sufocadas pelos seus ternos e impacientes, pois não está frio. O frio humaniza as pessoas.
Fiquei a pensar em suas últimas palavras quando peguei o ônibus para casa. O sol que entrava pelas janelas tostava minhas pernas já morenas.
sábado, 27 de agosto de 2011
26 de agosto de 2011
Duas horas antes de completar 19 anos, deitou a cabeça no travesseiro e pensou. Pensou e chorou. Geralmente seus raciocínios eram sempre acompanhados de lágrimas (não de alegria, não de tristeza. Chorava pela verdade das coisas). Chegou à conclusão que seus 18 anos foram bem vividos. Pensou nas últimas escolhas que fez em sua vida, roeu as unhas e pôde senti-las penicando sua pele no colchão durante a noite. Dormiu de sono.
Acordou no dia seguinte com o despertador programado para as oito da manhã, esticou-se até a cômoda para fazê-lo parar de gritar, mas a tentativa não teve sucesso. Finalmente, levantou-se e desligou o pequeno aparelho eletrônico. Olhou-se, como de costume, para o espelho. Notou que o olho direito estava borrado de rímel do dia anterior, não fez esforço para limpá-lo. Coçou a perna e sentiu um bicho lhe morder a carne. Não era bicho. Era um pedaço de unha da noite passada.
Abriu a porta do quarto, mal colocou os pés para fora dele e pôde ouvir sua mãe dizendo: "Minha vida!", como quem estava esperando a jovem aniversariante levantar para lhe dar um beijo e um abraço pelos anos de vida. O beijo e o abraço foram dados e com eles veio também o choro. Não de alegria, não de tristeza, mas pela verdade das coisas.
Se despediu, entrou no chuveiro, lotou as mãos de xampoo e lavou os cabelos. Esfregou a raíz e as pontas. Repetiu esse mesmo processo duas vezes. Saiu do banho e o notou que o rímel do dia anterior estava mais borrado do que quando acordara. Esfregou os olhos com a toalha, observou-se no espelho, sorriu para si mesma com os olhos murchos e voltou para o quarto.
Recebeu a visita do pai. Um abraço, um beijo e belas palavras.
Já estava na hora de ir para a van que a levaria para universidade. Como sempre, estava atrasada. Não importa o quão cedo acordasse, parecia que o atraso lhe despertava certo fascínio.
Recebeu os devidos cumprimentos dos colegas de trajeto. Não conseguiu dormir a viagem inteira.
Na universidade, a mesma coisa.
- Parabéns! Felicidades! Espero que você continue sendo essa menina maravilhosa.
- Parabéns, linda! Espero que você continue a ser assim, tão radiante.
Na verdade, ela não esperava nada. Aliás, esperava. Esperava não ser sempre a mesma.
Na volta da universidade, voltou calada. Ficou olhando a paisagem de São Paulo, ouvindo música alta. Nem os fones de ouvido impediram que seus companheiros de viagem a ouvissem.
Chegou em casa, mal trancou a porta e já foi se despindo novamente. Estava atrasada. Precisava passar o vestido branco, tirar o esmalte velho das unhas, tomar outro banho, arrumar os cabelos e decidir a cor dos lábios. Rosa ou vermelho?
- Rosa é mais menininha, devia usar vermelho.
Lembrou-se do que sua amiga havia lhe dito quando perguntada sobre essas duas cores. Escolheu o vermelho (Gabriela). Escolheu o sapato mais preto e mais alto, foi encontrar os amigos em um barzinho, como combinado.
Chegou atrasada, depois de dois convidados. Não sentiu-se envergonhada.
- Parabéns! Tudo de bom!
Recebeu também tapinhas nas costas. Pediu uma cerveja.
Os convidados foram chegando e o frenesi aumentando. Estava elétrica. Estava feliz. Estava emocionada. Estava cheia de juventude, não cabia dentro de si. Telefonemas preencheram a ausência de algumas pessoas.
Estava ansiosa para rever uma amiga, em especial. Pâmela Bardella. Estudaram juntas no colégio e fazia meses que não a via. Ela chegou, se abraçaram, o choro rolou. Não de alegria, não de tristeza, mas pela verdade das coisas. O avô dela havia falecido fazia quatro dias. Pâmela contou o quanto a cerimônia de enterro havia sido bonita, com muitas coroas de flores e um grupo musical sertanejo que o avô mais gostava. Pâmela entendeu que até mesmo na tristeza há beleza.
As horas passaram. Uns chegavam, outros iam. Pessoas desconhecidas também apareceram. Alguns foram embora cedo, outros restaram até o último minuto. Quase foram expulsos do bar, que estava por fechar.
Não queria que a noite acabasse. Saiu de carro com uns amigos. Ouvir música alta e dar risada. Cantou Beastie Boys o mais alto que pôde, curtiu a liberdade que a música proporcionava.
Pararam para comer um lanche. Mais risadas. Ela não estava bêbada, estava feliz. Bebera pouco, apesar de ter cantado músicas antigas em voz alta durante a noite toda, o que fez os outros pensarem que estivesse embriagada. Se assim fosse, estava embriagada todos os dias, então.
Voltou para casa, não sentiu-se saciada e não esperava que estivesse. Sempre queria mais, contentava-se com isso. Deitou a cabeça no travesseiro, olhou para o teto, teve flash's da noite que vivera. Pôde sentir ainda algumas das unhas roídas em seu colchão, as tirou de uma vez por todas. Adormeceu. Não de cansaço, não de alegria, não de tristeza, mas pela verdade das coisas.
Acordou no dia seguinte com o despertador programado para as oito da manhã, esticou-se até a cômoda para fazê-lo parar de gritar, mas a tentativa não teve sucesso. Finalmente, levantou-se e desligou o pequeno aparelho eletrônico. Olhou-se, como de costume, para o espelho. Notou que o olho direito estava borrado de rímel do dia anterior, não fez esforço para limpá-lo. Coçou a perna e sentiu um bicho lhe morder a carne. Não era bicho. Era um pedaço de unha da noite passada.
Abriu a porta do quarto, mal colocou os pés para fora dele e pôde ouvir sua mãe dizendo: "Minha vida!", como quem estava esperando a jovem aniversariante levantar para lhe dar um beijo e um abraço pelos anos de vida. O beijo e o abraço foram dados e com eles veio também o choro. Não de alegria, não de tristeza, mas pela verdade das coisas.
Se despediu, entrou no chuveiro, lotou as mãos de xampoo e lavou os cabelos. Esfregou a raíz e as pontas. Repetiu esse mesmo processo duas vezes. Saiu do banho e o notou que o rímel do dia anterior estava mais borrado do que quando acordara. Esfregou os olhos com a toalha, observou-se no espelho, sorriu para si mesma com os olhos murchos e voltou para o quarto.
Recebeu a visita do pai. Um abraço, um beijo e belas palavras.
Já estava na hora de ir para a van que a levaria para universidade. Como sempre, estava atrasada. Não importa o quão cedo acordasse, parecia que o atraso lhe despertava certo fascínio.
Recebeu os devidos cumprimentos dos colegas de trajeto. Não conseguiu dormir a viagem inteira.
Na universidade, a mesma coisa.
- Parabéns! Felicidades! Espero que você continue sendo essa menina maravilhosa.
- Parabéns, linda! Espero que você continue a ser assim, tão radiante.
Na verdade, ela não esperava nada. Aliás, esperava. Esperava não ser sempre a mesma.
Na volta da universidade, voltou calada. Ficou olhando a paisagem de São Paulo, ouvindo música alta. Nem os fones de ouvido impediram que seus companheiros de viagem a ouvissem.
Chegou em casa, mal trancou a porta e já foi se despindo novamente. Estava atrasada. Precisava passar o vestido branco, tirar o esmalte velho das unhas, tomar outro banho, arrumar os cabelos e decidir a cor dos lábios. Rosa ou vermelho?
- Rosa é mais menininha, devia usar vermelho.
Lembrou-se do que sua amiga havia lhe dito quando perguntada sobre essas duas cores. Escolheu o vermelho (Gabriela). Escolheu o sapato mais preto e mais alto, foi encontrar os amigos em um barzinho, como combinado.
Chegou atrasada, depois de dois convidados. Não sentiu-se envergonhada.
- Parabéns! Tudo de bom!
Recebeu também tapinhas nas costas. Pediu uma cerveja.
Os convidados foram chegando e o frenesi aumentando. Estava elétrica. Estava feliz. Estava emocionada. Estava cheia de juventude, não cabia dentro de si. Telefonemas preencheram a ausência de algumas pessoas.
Estava ansiosa para rever uma amiga, em especial. Pâmela Bardella. Estudaram juntas no colégio e fazia meses que não a via. Ela chegou, se abraçaram, o choro rolou. Não de alegria, não de tristeza, mas pela verdade das coisas. O avô dela havia falecido fazia quatro dias. Pâmela contou o quanto a cerimônia de enterro havia sido bonita, com muitas coroas de flores e um grupo musical sertanejo que o avô mais gostava. Pâmela entendeu que até mesmo na tristeza há beleza.
As horas passaram. Uns chegavam, outros iam. Pessoas desconhecidas também apareceram. Alguns foram embora cedo, outros restaram até o último minuto. Quase foram expulsos do bar, que estava por fechar.
Não queria que a noite acabasse. Saiu de carro com uns amigos. Ouvir música alta e dar risada. Cantou Beastie Boys o mais alto que pôde, curtiu a liberdade que a música proporcionava.
Pararam para comer um lanche. Mais risadas. Ela não estava bêbada, estava feliz. Bebera pouco, apesar de ter cantado músicas antigas em voz alta durante a noite toda, o que fez os outros pensarem que estivesse embriagada. Se assim fosse, estava embriagada todos os dias, então.
Voltou para casa, não sentiu-se saciada e não esperava que estivesse. Sempre queria mais, contentava-se com isso. Deitou a cabeça no travesseiro, olhou para o teto, teve flash's da noite que vivera. Pôde sentir ainda algumas das unhas roídas em seu colchão, as tirou de uma vez por todas. Adormeceu. Não de cansaço, não de alegria, não de tristeza, mas pela verdade das coisas.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Troca de pele
"Somos aquilo que escolhemos". Repetiu essa frase inúmeras vezes enquanto se olhava no espelho. Ficou a fitar-lhe os próprios olhos por um bom tempo. No reflexo nada havia mudado. Lembrou-se que fazia certo tempo que estava ali, apenas a se olhar. Voltou a lavar o rosto, passou a água pelas mãos e as notou enrugadas. A mão direita passeou levemente pela esquerda, fechou os olhos tentando imaginar que esse gesto estivesse sendo feito por outra pessoa. Não era. Abriu os olhos e sentiu-se envergonhada diante de si mesma. Sorriu com certa amargura, não se convenceu.
Abriu a internet, visitou alguns perfis, reparou em algumas vidas. Contestou a veracidade de uma imagem, contestou a felicidade de alguns sorrisos. Tentou tocar o rosto de algumas dessas pessoas, tentou tocar a si mesma, não conseguiu. Imaginou se existia um outro alguém que fizesse a mesma coisa, é óbvio que não haveria de ter.
Fechou os sites de relacionamentos: notícias. "Veja sutiã que aumenta duas vezes o tamanho dos seios". Não precisava disso, próxima notícia. "Supremo Tribunal Federal aprova casamento entre homossexuais", na foto de capa, nenhum gay, apenas alguma figura importante e engravatada. Pensou na questão, sentiu raiva da foto, pensou no amor e em sua mais linda forma de expressão. Cansou de pensar, cansou de ver esboços de pessoas. Pensou na impotência das imagens e no amor que as pessoas têm por essas.
Voltou ao espelho e ficou a ajeitar uma gravata imaginária; contraiu os lábios de modo nobre; franziu as sombrancelhas; fechou e abriu os olhos. Voltou a ser quem era (dessa vez, sem nobreza nos lábios e sombrancelhas).
Do lado de fora da casa, um barulho: o labrador brincando novamente com o velho pano de chão. Esboçou um sorriso, olhou para fotografia do cachorro que estava em cima da cômoda, sorriu para ela também. Sentiu-se tão vulnerável quanto os perfis da internet, aqueles, amantes da imagem. Pensou melhor, deixou de sorrir para foto, voltou a observar o cachorro.
Abriu a internet, visitou alguns perfis, reparou em algumas vidas. Contestou a veracidade de uma imagem, contestou a felicidade de alguns sorrisos. Tentou tocar o rosto de algumas dessas pessoas, tentou tocar a si mesma, não conseguiu. Imaginou se existia um outro alguém que fizesse a mesma coisa, é óbvio que não haveria de ter.
Fechou os sites de relacionamentos: notícias. "Veja sutiã que aumenta duas vezes o tamanho dos seios". Não precisava disso, próxima notícia. "Supremo Tribunal Federal aprova casamento entre homossexuais", na foto de capa, nenhum gay, apenas alguma figura importante e engravatada. Pensou na questão, sentiu raiva da foto, pensou no amor e em sua mais linda forma de expressão. Cansou de pensar, cansou de ver esboços de pessoas. Pensou na impotência das imagens e no amor que as pessoas têm por essas.
Voltou ao espelho e ficou a ajeitar uma gravata imaginária; contraiu os lábios de modo nobre; franziu as sombrancelhas; fechou e abriu os olhos. Voltou a ser quem era (dessa vez, sem nobreza nos lábios e sombrancelhas).
Do lado de fora da casa, um barulho: o labrador brincando novamente com o velho pano de chão. Esboçou um sorriso, olhou para fotografia do cachorro que estava em cima da cômoda, sorriu para ela também. Sentiu-se tão vulnerável quanto os perfis da internet, aqueles, amantes da imagem. Pensou melhor, deixou de sorrir para foto, voltou a observar o cachorro.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Vermelho Gabriela
Era assim todos os dias, impreterivelmente: acorda, tira a pilha do relógio, volta a folha do calendário, fecha a cortina, baseado bem bolado. Às vezes tinha um livro, o folheava tal qual o calendário, palavras, frases. Algumas lhe reverberavam na cabeça, tal qual o baseado bem bolado. Num trecho lia: "agora podia sentir seu lado humano". Sim ele podia sentir seu lado humano.
Lembrou-se de uma vez, quando estava com certa garota: estavam penetrados corporalmente e, naquele momento, soube que podia sentir seu lado humano.
Ele, só acreditava no apalpável, no que se podia tocar. Fora essa mesma garota que o transportara a tal vida de agora (medíocre para uns, diga-se de passagem). Tinha se apaixonado pelo belo par de seios, codinome Gabriela.
Até então desconhecia o gosto do tabaco, o gosto da erva e do orvalho. Da massa e das maçãs. Sentiu vontade de comer maçãs, esquecera-se do gosto momentaneamente, depois lembrou. Mas seria massa ou maçã o que agora lhe invadia a boca? Não soube, talvez nunca mais o fosse saber, sentiu medo. Releu em um dos livros: "agora podia sentir seu lado humano". Agora podia, podia, podia sentir seu lado humano, humano...
Ocorreu-lhe a mente uma frase, Gabriela dissera uma vez: "Te amo, menos do que você a mim, mas mais do que eu à mim mesma". Reminiscências de um par de seios, de um nome e agora de uma frase.
Lembrou-se de outra ocasião em que estiveram a sós. O silêncio, como sempre, consentia nos lábios do humanizado. Naquela lembrança, estava ela debulhada em êxtase. Lembrara-se ele de que vez alguma a vira assim. O amava e somente por alguns minutos. Era como se fossem transportados ao paralelismo de um passado distante. Numa única badalada, voltavam a ser João e Maria.
“Somos mesmo amantes ou inimigos, não?” - era o que Gabriela costumava dizer. O dizia inspirada no que ouvia. Na música popular brasileira.
E ele nada dizia, inspirado talvez na musica clássica, Bach. Ela não conhecia, talvez por isso não pudesse sentir que ele também falava, mas não como música popular brasileira, mas como violino. Não com retórica dos namorados, mas com poesia de gestos.
Não se lembrava a cor do cabelo de Gabriela, um azul desmaiado? Não, isso eram seus olhos... Seria ruivo? Não, vermelhos eram seus modos. Preto? Loiro? Castanho? Não, assim não poderia ser. Gabriela era sem meios termos, era extremos. Incrivelmente, não estava todos os dias bonita. Era visivelmente linda aos olhos do apaixonado, exótica, aos olhos dos simpatizantes e feia aos olhos do mundo. Seu amor era transitório, bêbado, desequilibrado. E ele era o equilibrista. A cada dia era uma luta trazê-la para dentro de si, no corpo e na alma.
Após fechar o livro que o reportara a tais lembranças, morder uma maçã e logo em seguida jogá-la no lixo, pegou sua jaqueta jeans furada e partiu rumo fora daquele quarto. Sua mãe sempre lhe dizia que era bom levá-la consigo, caso fizesse frio. Tinha poucas lembranças maternas, mas as que tinham eram muito fortes. Também eram mesmo amantes ou inimigos.
Era o sexto dia da semana, o dia de sentir seu próprio lado humano, o dia que o encaminhou para fora. As ruas eram uma coisa entre pálidas e sêcas, assim como seus transeuntes. O céu era de verão, apesar de tudo, as pessoas pareciam sufocadas. Ele contemplava a tudo indiferente. Sua jaqueta furada o protegia de tudo, meteu o dedo pelo furo e pôde quase ouvir mais uma vez sua mãe pedindo para costurá-la. Quando foi que de amante passaram a inimigos? Talvez no dia em que ela a costurou, de fato, a angústia lhe invadiu o peito mais uma vez, a fúria. Ela não tinha o direito, não poderia tê-la costurado. Refurou-a inúmeras vezes tentando encontrar o ponto certo, o ponto harmônico. Impossível. Parou e espirrou, algumas lágrimas desceram de seu nariz, era salgado e quente.
Gabriela, fora ela que descobrira o ponto exato, o furo certeiro, a questão é que ele ia se esvaindo, vazando... Mas dessa vez ele se certificaria para que ninguém o costurasse.
Vazava, mas não era seu amor, pelo contrário, ele permanecia, era a única coisa que permanecia, aliás. O resto ia se esvaindo, ia sendo despejando para fora.
- Eu amo você, demasiadamente e urgentemente - disse uma vez Gabriela em mais uma de suas lembranças.
- E eu amo você, desmesuradamente e...
Não dissera na ocasião a palavra, mas agora ela lhe concretizava a boca. Agora, depois de tudo, sabia exatamente a palavra que faltava, a palavra que a tudo explicaria.
- Amo você desmesuradamente e mortalmente - ficou a repetir a frase.
Não pode remontar agora o motivo, a causa, mas ele a machucara, certa vez ele a ferira, como poderia?
Angustiou-lhe o peito essa possibilidade, tentou pensar que não, mas sabia em crescente desespero que sim, embora ela a princípio negasse e ele não pudesse, na ocasião, fitar-lhe os olhos. Podia sentir as borboletas morrendo em seu estômago.
Ele pediu desculpa, bem que as pediu. E ela aceitou, bem que as aceitou. Mas estava além de palavras, o que a boca expressava era alheio ao estômago, como se essa, de alguma forma se desvinculasse desse último. E as borborletas agora jaziam mortificadas, talvez para sempre.
Por uma vez mais quis chorar, mas estava sêco demais para tal privilégio. Gabriela era sêca, aliás, talvez fora ela que o secara.
Parou no primeiro orelhão que avistou na rua, ainda era memorável o número de Gabi. Comprou um cartão telefônico de um português com sotaque fajuto, se deparou frente a números, lembranças. Sentia medo agora, sua mão direita tremia mais que sua perna em noites frias com o lençol mal coberto. Sentia medo do que lhe esperava por de trás da linha. Talvez doce Gabi, talvez sagaz e felina Gabriela. Coitado, mal sabia agora que ela o desprezava, seu amor ficara guardado dentro de uma caixinha tola de lembranças chamada coração.
-Alô? - sim, era a voz de Gabriela, tão mais madura, tão mais segura, um tanto frustrante, confessou o humanizado a si mesmo.
-Gabriela...? - houve uma pausa torturante na voz da jovem e ele podia saber o que se passava dentro da cabeça dela, principalmente, dentro do seu coração. Eram sim lembranças, carícias, dor e rancor. Incrivelmente ele queria conhecer o novo rosto de Gabi, sabia que havia mudado de face, não era para menos. Ele havia deixado apodrecer as doces lembranças que tiveram. Na verdade não amava Gabriela, amava somente a sua lembrança. Gabriela? Não existe mais, não a quem ele procurava e estava do outro lado da linha esperando qualquer reação. Sentiu uma dor no peito, queria poder viver só de passado e não tem mais forças pra buscar isso num futuro próximo, não com Gabriela.
Inconscientemente percebeu que tudo que pensara estava sendo pronunciado pelos seus lábios, mas Gabriela já havia saído da linha há um bom tempo, ele estava apenas conversando consigo mesmo. Voltou para casa, quis recomeçar o sexto dia da semana e buscar seu futuro. Dormiu por um longo tempo: acordou, colocou a pilha no relógio, arrancou a folha do calendário, abriu a cortina, baseado bem bolado...Percebeu que algumas coisas não mudam, somente o tempo.
Lembrou-se de uma vez, quando estava com certa garota: estavam penetrados corporalmente e, naquele momento, soube que podia sentir seu lado humano.
Ele, só acreditava no apalpável, no que se podia tocar. Fora essa mesma garota que o transportara a tal vida de agora (medíocre para uns, diga-se de passagem). Tinha se apaixonado pelo belo par de seios, codinome Gabriela.
Até então desconhecia o gosto do tabaco, o gosto da erva e do orvalho. Da massa e das maçãs. Sentiu vontade de comer maçãs, esquecera-se do gosto momentaneamente, depois lembrou. Mas seria massa ou maçã o que agora lhe invadia a boca? Não soube, talvez nunca mais o fosse saber, sentiu medo. Releu em um dos livros: "agora podia sentir seu lado humano". Agora podia, podia, podia sentir seu lado humano, humano...
Ocorreu-lhe a mente uma frase, Gabriela dissera uma vez: "Te amo, menos do que você a mim, mas mais do que eu à mim mesma". Reminiscências de um par de seios, de um nome e agora de uma frase.
Lembrou-se de outra ocasião em que estiveram a sós. O silêncio, como sempre, consentia nos lábios do humanizado. Naquela lembrança, estava ela debulhada em êxtase. Lembrara-se ele de que vez alguma a vira assim. O amava e somente por alguns minutos. Era como se fossem transportados ao paralelismo de um passado distante. Numa única badalada, voltavam a ser João e Maria.
“Somos mesmo amantes ou inimigos, não?” - era o que Gabriela costumava dizer. O dizia inspirada no que ouvia. Na música popular brasileira.
E ele nada dizia, inspirado talvez na musica clássica, Bach. Ela não conhecia, talvez por isso não pudesse sentir que ele também falava, mas não como música popular brasileira, mas como violino. Não com retórica dos namorados, mas com poesia de gestos.
Não se lembrava a cor do cabelo de Gabriela, um azul desmaiado? Não, isso eram seus olhos... Seria ruivo? Não, vermelhos eram seus modos. Preto? Loiro? Castanho? Não, assim não poderia ser. Gabriela era sem meios termos, era extremos. Incrivelmente, não estava todos os dias bonita. Era visivelmente linda aos olhos do apaixonado, exótica, aos olhos dos simpatizantes e feia aos olhos do mundo. Seu amor era transitório, bêbado, desequilibrado. E ele era o equilibrista. A cada dia era uma luta trazê-la para dentro de si, no corpo e na alma.
Após fechar o livro que o reportara a tais lembranças, morder uma maçã e logo em seguida jogá-la no lixo, pegou sua jaqueta jeans furada e partiu rumo fora daquele quarto. Sua mãe sempre lhe dizia que era bom levá-la consigo, caso fizesse frio. Tinha poucas lembranças maternas, mas as que tinham eram muito fortes. Também eram mesmo amantes ou inimigos.
Era o sexto dia da semana, o dia de sentir seu próprio lado humano, o dia que o encaminhou para fora. As ruas eram uma coisa entre pálidas e sêcas, assim como seus transeuntes. O céu era de verão, apesar de tudo, as pessoas pareciam sufocadas. Ele contemplava a tudo indiferente. Sua jaqueta furada o protegia de tudo, meteu o dedo pelo furo e pôde quase ouvir mais uma vez sua mãe pedindo para costurá-la. Quando foi que de amante passaram a inimigos? Talvez no dia em que ela a costurou, de fato, a angústia lhe invadiu o peito mais uma vez, a fúria. Ela não tinha o direito, não poderia tê-la costurado. Refurou-a inúmeras vezes tentando encontrar o ponto certo, o ponto harmônico. Impossível. Parou e espirrou, algumas lágrimas desceram de seu nariz, era salgado e quente.
Gabriela, fora ela que descobrira o ponto exato, o furo certeiro, a questão é que ele ia se esvaindo, vazando... Mas dessa vez ele se certificaria para que ninguém o costurasse.
Vazava, mas não era seu amor, pelo contrário, ele permanecia, era a única coisa que permanecia, aliás. O resto ia se esvaindo, ia sendo despejando para fora.
- Eu amo você, demasiadamente e urgentemente - disse uma vez Gabriela em mais uma de suas lembranças.
- E eu amo você, desmesuradamente e...
Não dissera na ocasião a palavra, mas agora ela lhe concretizava a boca. Agora, depois de tudo, sabia exatamente a palavra que faltava, a palavra que a tudo explicaria.
- Amo você desmesuradamente e mortalmente - ficou a repetir a frase.
Não pode remontar agora o motivo, a causa, mas ele a machucara, certa vez ele a ferira, como poderia?
Angustiou-lhe o peito essa possibilidade, tentou pensar que não, mas sabia em crescente desespero que sim, embora ela a princípio negasse e ele não pudesse, na ocasião, fitar-lhe os olhos. Podia sentir as borboletas morrendo em seu estômago.
Ele pediu desculpa, bem que as pediu. E ela aceitou, bem que as aceitou. Mas estava além de palavras, o que a boca expressava era alheio ao estômago, como se essa, de alguma forma se desvinculasse desse último. E as borborletas agora jaziam mortificadas, talvez para sempre.
Por uma vez mais quis chorar, mas estava sêco demais para tal privilégio. Gabriela era sêca, aliás, talvez fora ela que o secara.
Parou no primeiro orelhão que avistou na rua, ainda era memorável o número de Gabi. Comprou um cartão telefônico de um português com sotaque fajuto, se deparou frente a números, lembranças. Sentia medo agora, sua mão direita tremia mais que sua perna em noites frias com o lençol mal coberto. Sentia medo do que lhe esperava por de trás da linha. Talvez doce Gabi, talvez sagaz e felina Gabriela. Coitado, mal sabia agora que ela o desprezava, seu amor ficara guardado dentro de uma caixinha tola de lembranças chamada coração.
-Alô? - sim, era a voz de Gabriela, tão mais madura, tão mais segura, um tanto frustrante, confessou o humanizado a si mesmo.
-Gabriela...? - houve uma pausa torturante na voz da jovem e ele podia saber o que se passava dentro da cabeça dela, principalmente, dentro do seu coração. Eram sim lembranças, carícias, dor e rancor. Incrivelmente ele queria conhecer o novo rosto de Gabi, sabia que havia mudado de face, não era para menos. Ele havia deixado apodrecer as doces lembranças que tiveram. Na verdade não amava Gabriela, amava somente a sua lembrança. Gabriela? Não existe mais, não a quem ele procurava e estava do outro lado da linha esperando qualquer reação. Sentiu uma dor no peito, queria poder viver só de passado e não tem mais forças pra buscar isso num futuro próximo, não com Gabriela.
Inconscientemente percebeu que tudo que pensara estava sendo pronunciado pelos seus lábios, mas Gabriela já havia saído da linha há um bom tempo, ele estava apenas conversando consigo mesmo. Voltou para casa, quis recomeçar o sexto dia da semana e buscar seu futuro. Dormiu por um longo tempo: acordou, colocou a pilha no relógio, arrancou a folha do calendário, abriu a cortina, baseado bem bolado...Percebeu que algumas coisas não mudam, somente o tempo.
domingo, 15 de agosto de 2010
21ª Bienal Internacional do Livro
Esse post é apenas uma descrição do meu dia de ontem com uma bela dica para quem curte um evento cultural e não só de porte literário.
Bom, ontem estava de pé desde as sete da manhã, estive na escola esse horário para a não esperada recuperação de física (que por sinal não faz jus ao nome, já que a única coisa que recuperei foi o cansaço semanal). Após isso, reuni-me com Pâmela, Paçoca e Juliana em frente ao colégio para embarcamos numa trip: a 21ª Bienal Internacional do Livro, ocorrida pela primeira vez no Brasil (mais precisamente em São Paulo) na década de 70, baseada nos costumes europeus em promover feiras de livros.
Tomamos um cafézinho no Mac Donalds e partimos rumo à estação de trem, lá fiz algumas fotografias (adoro o ambiente de estação). Dentro do trem ficamos conversando, trocando ideias. Chamei a atenção de Pâmela para um senhor que estava sentado bem a nossa frente, de pele dourada, olhos fundos, demasiadamente redondos e pretos.:
- Olha lá aquele senhor sentado na janela, Pâmela. Repare na penumbra de sol que está nos olhos dele, daria uma bela fotografia.
- Engraçado isso, né? Você conseguiu analisar esse lado da visão fotográfica, eu estava reparando no lado psicológico. Olhe os olhos dele...Se movimentam como os de uma criança curiosa.
Juliana também fez uma observação que me fez pensar:
- Eu sinto tanto sono no trem...Parece que estou sendo ninada com o balanço dos trilhos.
Olhei as pessoas em volta, olhei o senhor, um rapaz dormindo atrás de mim com um fone nos ouvidos e outro apenas pensando, adoraria ter sabido o quê. Sim, estavam todos sendo ninados. O trem e o sono são duas pausas que as pessoas dão (quer queiram ou não) para se desligarem das emoções proporcionadas pela realidade. Em ambos podemos sonhar, estabelecer um diálogo próprio e assim como quando despertamos do sono para voltarmos a viver nossas realidades, nos despertamos de nossos pensamentos para desembarcamos do trem em uma outra parada, a estação (onde também damos uma continuidade em nossas realidades).
Chegamos em São Paulo, pegamos um ônibus e fomos para a feira que estava demais. Não só por tratar-se de leitura, mas por conseguir agregar de forma tão harmniosa a questão da mesma com o intercambismo cultural: palestras e palestras dos mais variados gêneros, entre elas sobre os escritores Clarice Lispector e Monteiro Lobato, debates jornalísticos orientando sobre a profissão repórter e uma mostra sobre a cultura indígena.
Foi incrível ver a reação das pessoas dentro de cada editora, cada uma com sua particularidade e fascínio próprio, me senti em pura sintonia com elas.
Não conseguimos visitar toda a feira (fica a dica pra quem adora demorar e procurar minunciosamente seu livro), porém, adquiri dois que me valeram muito a pena: "Psiquiatria, Loucura e Arte" da editora Edusp, aborda o tema usando fragmentos da história brasileira para tal análise e "Cine Filô" de Ollivier Pourriol que aborda diversas questões filosóficas que podemos encontrar nos filmes, como Forrest Gump e Vidas em Jogo.
Saímos de São Paulo e o céu estava quase que escuro. Enquanto esperávamos o ônibus, as meninas resolveram tomar outro café e eu decidi escrever sobre o dia de ontem. Comecei e mal-terminei, o ônibus chegou e minha escrita fora interrompida. Dormi a viagem toda ouvindo a música que só eu conseguia ouvir, ela estava na minha cabeça. Peguei no sono e quando acordei já estava em Jundiaí. O cansaço valeu a pena, valeu pela companhia, pela viagem e pelo destino. Ler, viver: com toda certeza é uma viagem.
Nota: A fotografia foi tirada na estação Tietê, são tantas as cores, são tantas as pessoas. Trilha sonora para o texto - "Broken Horse", Freelance Whales.
sábado, 7 de agosto de 2010
O Céu dos Quedistas

Sonhei que estava no topo do mundo e que dele despencava sem cordas de segurança ou qualquer outro dispositivo que me protegesse do que estaria por encontrar ao final. Na verdade havia cordas, mas escolhi não usá-las. Enquanto caía de braços abertos, me perguntava: "aonde vou parar no fim de tudo isso? E por que sem cordas?", o medo invadia meu corpo e se misturava com toda adrenalina que o declínio proporcionara. Não sabia exatamente o por que de ter me permitido despencar, só sabia, inexplicavelmente, que deveria fazê-lo.
Apesar do medo, a queda me fez sentir o vento que vinha de baixo e me descabelava por inteira, que tapava meu nariz e me obrigava a expirar de uma nova maneira. Nenhuma outra queda havia sido assim tão prazerosa. Foi fascinante não saber pelo que esperar, o que estava por encontrar não era visível ou previsível.
Quer saber o que havia abaixo da queda? Uma espécie de cama elástica que me impulsionava para cima como um foguete, foi irônico como a mesma me proporcionara as mesmas sensações anteriores, porém de forma inversa: me fez sentir o vento que vinha de cima e assentava meus cabelos, que dava prepulsão ao meu nariz e me fazia inspirar com todo o corpo. Então eu alcancei o céu nadei por ele todo, deixando que a brisa me fizesse flutuar por entre o azul e entrar em contato com outras pessoas, "quedistas" como eu. Chamei de “o céu dos quedistas”.
Nota: Esse sonho foi real e significou para mim uma grande metáfora. A partir de hoje sonho com a grande queda. Após acordar, percebi que se tivesse usado cordas, estaria abusando de uma presunção equivocada: a de que em toda queda há uma aterrissagem dolorosa e que esse mecanismo (as cordas), que de início viria para proteger, acabaria me impossibilitando da grande subida.
Ao contrário do que se pensa, nem toda queda é letal. É necessário entender que o “céu” só é alcançado por aqueles que se permitem “cair” sem medo.
Trilha sonora para o texto: "Generator First Floor" - Freelance Whales
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